1. Alguns professores mostraram-se mais à vontade na televisão e na rua do que na escola. Nas televisões e na rua, foram expeditos a descompor o primeiro-ministro, a ministra, o ministério e os encarregados de educação. Na escola, queixam-se de não conseguirem dar aulas por medo dos alunos. Estes gozam de um estatuto que os torna indomáveis. Se, ainda há pouco, os professores eram considerados responsáveis pelo insucesso escolar, agora, a indignação voltou-se contra os alunos e os pais: cada turma deveria ter um segurança e cada professor um guarda-costas, sem recorrer aos psicólogos, aliados naturais da permissividade.
Alegrou-me ver, na televisão, o Prof. José Gameiro, psiquiatra, resistir à histeria criada em torno de um telemóvel – um dos novos símbolos mais estimados de adolescentes e jovens – transformada em arma política. Em relação à boa disciplina e segurança, tenho a referência da minha escola, nos começos dos anos 40 do século passado: nada de falinhas mansas; o marido da professora era um legionário de mão pesada, a quem ela recorria com frequência. A delicadeza dos pais sublinhava: “só se perdem as que caem no chão”.
2. Tenho, no entanto, alguma dificuldade em acreditar que alunos, professores, pais, funcionários e responsáveis do ministério se encontrem bem identificados nas imagens registadas nas últimas semanas. Aproveitando a onda, os professores queixosos talvez não sejam o único espelho da escola em Portugal.
Os meios de comunicação, em alguns casos, ainda não se libertaram da triste sina que lhes colaram: uma boa notícia não é notícia. Depois de terem colaborado na liquidação do ministro da saúde, acabaram por tecer os maiores elogios às medidas que ele tinha tomado, lamentando a sua saída como vítima de uma política eleitoralista…
Por outro lado, dizer que, em Portugal, é sempre assim, que nunca sabemos valorizar o que temos, que estamos sempre na cauda de tudo até na cauda do reconhecimento dos nossos méritos, alarga a maledicência, mas não cria alternativas. Os problemas não estão, isoladamente, na família, na escola, nos meios de comunicação, no futebol, na sociedade civil ou no Estado, nem se podem atribuir todas as graças e desgraças à globalização. O recurso a bodes expiatórios, fixando-se só em algumas pessoas, grupos, corporações, instituições, etnias, acaba por ter culpados de turno, mas não gera correntes diversas de cidadania responsável, que respeitem o princípio da boa medida e do bom senso.
3. Adela Cortina, catedrática de Ética e de Filosofia Política, na Universidade de Valência, ganhou o Prémio Internacional de Ensaio (Jovellanos) de 2007 pelo seu livro, Ética de la razón cordial. Educar en la ciudadanía en el siglo XXI, (Ed. Nobel, 2007).
Esta obra foi escrita 20 anos depois de uma outra, que a tornou célebre – Ética mínima – que alguns invejosos qualificaram de “ética em saldo”, ao alcance dos recursos modestos da moralidade reinante. Pelo contrário, a autora percebeu que Espanha estava a abandonar, rapidamente, os caminhos de uma sociedade de código moral único, incapaz de ajudar a construir uma sociedade plural baseada nos valores mais fundamentais. Parecia-lhe importante que pessoas, com distintos projectos de vida que se deseja cada vez mais plena, pudessem trabalhar, lado a lado, para ir incarnando, na vida quotidiana, os ideais de uma sociedade mais justa. A. Cortina procurava pensar uma ética cívica, isto é, de cidadãos, com implicações na vida moral, mas também na vida política, económica e religiosa. É certo que os entusiastas do conflito pelo conflito – não as vítimas, mas os que guardam na alma um estranho ressentimento fossilizado – não estão interessados na descoberta de valores partilháveis. Preferem agudizar contradições: quanto pior, melhor. Os adeptos do conflito pelo conflito nunca terão capacidade crítica. Criticar é discernir entre o que une e o que separa, entre o justo e o injusto. Eles só conhecem recusas absolutas ou adesões incondicionais.
Nos últimos 20 anos, muita coisa mudou na vida social, económica, política, cultural e religiosa de Espanha e do mundo. Adela Cortina, embora reconhecendo o papel desempenhado pela Ética mínima, descobriu através de novas investigações, suas e de outros, os limites dessa proposta e a necessidade de a refazer na totalidade. Já não a satisfaz a famosa ética dialógica de Apel e Habermas como fundamento filosófico de uma ética cívica da vida quotidiana. Parece-lhe que uma ética que confia à arte os modelos de auto-realização; à religião, arte e ciências, as ofertas de felicidade; ao direito e à política, a legitimação de normas e a formação da vontade; às distintas comunidades e grupos, a configuração de virtudes, acaba por dissolver o fenómeno chamado “moral”. A educação do desejo, a degustação dos valores, a abertura cosmopolita, a sociedade do conhecimento, uma prudente qualidade de vida e uma sabedoria cordial são indispensáveis para uma cidadania do século XXI. Não pode haver bons educadores sem uma ética da educação, repensada e vivida.
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